Jonathan CamargoMinha história
Uma curiosidade quase obsessiva por entender como as coisas funcionam — e uma inconformidade permanente com a dependência. É esse o fio que liga tudo o que construí.
Cresci entre oficinas, ferramentas, máquinas e as empresas da família. Criança, eu desmontava brinquedos, bicicletas, motores — qualquer coisa — só para entender como funcionavam. O que parecia teimosia virou minha principal ferramenta: a capacidade de entender sistemas, do brinquedo ao ecossistema.
Meu pai foi minha maior influência. Diante de qualquer problema, tinha uma postura prática e nunca aceitava que algo “não dava”. A frase dele me acompanha até hoje: “Nunca fiz, mas eu faço.” Do meu avô Lindolpho aprendi o que não sai de moda: honestidade, simplicidade, palavra e integridade. E teve um professor de história que enxergou o que a escola não via — que eu não aprendia bem no modelo tradicional, mas era um autodidata nato. Foi ele quem me deu permissão para seguir meu próprio caminho de aprender: investigar, testar, errar e construir na prática.
Não me formei numa universidade. Me formei na bancada.
Meu primeiro contato direto com o mundo científico foi estudando catálogos técnicos em inglês, equipamentos, importação, infraestrutura. Comecei a frequentar laboratórios, acompanhar pesquisadores, visitar universidades. E enxerguei de perto um abismo: o Brasil tinha excelentes cientistas, mas dependia de fora para quase tudo — reagente, equipamento, suporte. Ali percebi que podia unir meu talento de resolver problemas a um propósito maior.
Passei por toda a cadeia: assistência técnica, importação, distribuição, montagem de laboratórios, desenvolvimento. Construí empresas e aprendi na pele que capacidade técnica, sozinha, não sustenta um negócio — é preciso gestão, caixa, governança e marca. Projetos com instituições de pesquisa e saúde de peso forjaram a autoridade. Cada laboratório, cada importação complicada, cada problema resolvido virou visão.
O mundo fechando, fronteiras, escassez, uma corrida global por testes. Num galpão improvisado em Miami, saiu meu primeiro kit de qPCR para COVID. Não era o laboratório perfeito. Mas era o que tínhamos — e foi suficiente para começar. Em seguida, uma rede de laboratórios da qual fui sócio realizou mais de 2,5 milhões de exames na pandemia. Foi a virada: deixei de ser quem traz a tecnologia para me tornar quem a cria. E consolidei uma convicção: tecnologia em saúde não é luxo — é infraestrutura crítica.
2020 também me tirou o que eu tinha de mais precioso: minha filha Giovanna. Foi da dor que nasceu o compromisso de construir algo que permaneça. Concebi o Instituto Giovanna Matias Camargo (IGMC) e me dediquei ao Sahudes e ao Cuidar+ Mulher. A luta ganhou um rosto: não basta o Brasil produzir a tecnologia — ela tem que chegar a quem mais precisa.
A vida também me ensinou a reconstruir — e essa parte tem um nome: Tamiris, minha esposa e sócia. Bióloga geneticista, especialista em vínculo genético e responsável técnica do Mullis, ela é uma das forças técnicas por trás do ecossistema: a mesma pessoa que me ajuda a construir a ciência me ajudou a reconstruir a família. Com ela e com minha filha Maria Clara, reencontrei rumo e união — e, em 2024, chegou a Maria Fernanda. A mesma teimosia que aplico à bancada eu apliquei à vida: não deixar que uma perda tenha a última palavra.
Hoje construo um ecossistema de saúde e diagnóstico movido por uma ideia simples e teimosa: o Brasil precisa deixar de ser apenas consumidor de tecnologia em saúde para se tornar desenvolvedor, produtor e exportador de soluções. E precisa fazer essa ciência chegar a quem o CEP deixou de fora. São as duas metades da mesma luta contra a dependência — a que me move desde que eu desmontava brinquedos para entender o mundo.
Ciência sem acesso é vaidade. Ciência com acesso é dignidade.