Em março de 2020, eu vi o mundo fechar as portas em tempo real. Fronteiras travaram, voos pararam, e a tecnologia que salvava vidas — reagentes, insumos, equipamentos — simplesmente deixou de atravessar a alfândega. Não porque não existisse. Porque não era nossa.

Passei mais de vinte anos trazendo essa tecnologia para o Brasil. Conheço a cadeia inteira, do reagente ao resultado. E foi justamente por conhecê-la que entendi, naquele momento, uma verdade incômoda: um país que depende de fora para diagnosticar a própria população não tem soberania em saúde — tem sorte.

A dependência é invisível até faltar

Quando tudo funciona, ninguém pergunta de onde vem o kit de PCR, o insumo de extração, a enzima que faz a reação acontecer. A dependência é silenciosa. Ela só aparece no dia em que a cadeia global engasga — uma pandemia, uma guerra, um câmbio que dobra, uma fábrica do outro lado do mundo que decide priorizar o próprio mercado.

Nesse dia, você descobre que “importar” não era uma estratégia. Era uma aposta. E o Brasil apostou a própria saúde nela por décadas.

Autonomia não é nacionalismo — é infraestrutura crítica

Quando falo em autonomia tecnológica, não estou defendendo fechar o país nem trocar o bom pelo nacional. Estou dizendo algo mais concreto: diagnóstico é infraestrutura crítica, no mesmo nível de energia, água e telecomunicação. Nenhum país sério terceiriza 100% da própria infraestrutura crítica e chama isso de eficiência.

Ter capacidade local de desenvolver e produzir um teste não significa abrir mão do mundo. Significa ter piso. Significa que, quando a cadeia global falha, você não para — você produz.

O que aprendi trazendo tecnologia por 20 anos

Comecei consertando e instalando equipamentos. Depois importando, distribuindo, montando laboratório. Fui, por 15 anos, o elo entre grandes fabricantes globais e quem precisava da tecnologia aqui. Ganhei a vida sendo esse elo — e aprendi na pele os limites dele.

O importador vive de margem sobre o esforço dos outros. Ele não decide o preço, não decide o prazo, não decide a prioridade. Quando a fila global aperta, ele é o último a ser servido. Eu não queria mais ser o último da fila. Queria estar na origem.

Foi por isso que, num galpão improvisado em Miami, no meio da pandemia, desenvolvi meu primeiro kit de qPCR. A virada não foi técnica — a técnica eu já dominava. A virada foi de papel: deixei de ser quem traz a tecnologia para ser quem a cria.

O caminho tem três verbos

Autonomia tecnológica em saúde se constrói em três movimentos, nessa ordem:

  • Desenvolver — dominar o ensaio, o reagente, o protocolo. Saber fazer, não só usar.
  • Produzir — ter estrutura própria: P&D, produção, controle de qualidade, registro regulatório. Um kit com registro ANVISA não é papel — é prova de que o país consegue.
  • Exportar — o teste final de maturidade. Quem exporta tecnologia em saúde deixou de ser colônia sanitária e virou fornecedor do mundo.

O Brasil tem cientista, tem demanda, tem escala. Falta decidir que produzir a própria ciência que salva vidas é uma escolha estratégica — não um luxo para quando sobrar dinheiro.

A conta que ninguém quer fazer

Depender de fora é barato até o dia em que fica caríssimo. O custo não aparece na planilha do ano bom. Aparece na fila de espera do ano ruim, no exame que não chega, no diagnóstico que atrasa, na vida que se perde por falta de um insumo que poderia ter sido feito aqui.

O Brasil não pode depender de fora para cuidar da própria saúde. Autonomia não é sobre orgulho — é sobre não ficar refém.

Passei duas décadas trazendo a tecnologia. Agora construo quem a produz — e quem a leva adiante. É a mesma luta contra a mesma dependência que me move desde criança, quando eu desmontava tudo só para entender como funcionava por dentro.

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